Ponto de Partida para a Descoberta da Ilha

Propomos-te aqui um percurso virtual pela ilha da Berlenga.. Os vários pontos de interesse estão assinalados com pontos vermelhos num mapa que apresentamos abaixo. Se não quiseres fazer a visita virtual completa, clica sobre eles para verificares o que se pode observar em cada paragem.

o farol a antena o barco a tenda os moradores a fortaleza início

Vamos partir à descoberta da ilha da Berlenga!

Carrega aqui para ver  imagens de satélite da Ilha da Berlenga

Mas antes disso, é importante ficar a saber que a Berlenga e todos os ilhéus que, juntamente com ela, constituem o Arquipélago das Berlengas, estão integrados na Reserva Natural da Berlenga, que foi criada com o objectivo fundamental de preservar os ecossistemas terrestres e marinhos desta zona. Sendo assim, o visitante tem que respeitar certas normas, entre elas as que se seguem:

Se cumprirmos estas normas, apreciaremos a beleza natural da ilha sem interferir no seu equilíbrio, deixando-a intacta para que outros visitantes possam também disfrutar dela e para que os muitos organismos que têm aqui a sua casa não sejam prejudicados pela nossa presença.

Agora sim, podemos partir! Já agora, convém salientar que as imagens que aqui vais ver foram captadas em finais de Junho; se visitares a ilha noutra época do ano, é natural que encontres a ilha com outro aspecto.


Abandonemos então a nossa tenda virtual e tomemos o trilho da natureza que nos leva pela chamada Ilha Velha.

Um hóspede que se tornou indesejado

Olhando para a vegetação que rodeia o trilho, observamos, formando um grande e denso tapete, uma planta que, curiosamente, não é originária destas paragens. É o chorão, planta cujas origens nos levam lá para os lados da África do Sul. Sendo de tão longe, como terá chegado aqui?

Se outras plantas se espalham com a ajuda do vento e da água, que arrastam as suas sementes, ou das aves, que as carregam no seu aparelho digestivo, o chorão teve por aqui a vida facilitada: foi pela mão do homem que chegou à ilha. Pensava-se então (isto em meados do séc. XX, que há pouco terminou) que esta planta, graças às suas raízes, faria frente ao efeito erosivo da água e do vento, impedindo o desgaste das encostas. Talvez por falta de conhecimento, não se contou com os efeitos que este "hóspede" teria sobre as outras plantas.

É que o chorão reproduz-se muito eficazmente, retirando espaço e recursos às plantas nativas, isto é, que já cá estavam há muito tempo. "Então, que se arranque o chorão!", pensamos logo, com vista a resolver o problema. O grande problema é que esta planta tem sementes muito resistentes, não é fácil de queimar pois acumula muita água, e pode-se reproduzir vegetativamente, isto é, a partir de um pedaço de chorão pode-se formar uma nova planta. As pessoas ligadas à Reserva Natural fazem o que podem para, pelo menos, manterem a cobertura de chorão controlada. Mas expulsá-lo de vez é quase impossível.

O chorão é um exemplo de espécie exótica, nome dado às espécies que o Homem introduz num território em que antes estavam ausentes.


No Barco, propomos-te uma actividade de pesquisa na Internet em que podes aprender mais sobre os problemas associados a estes espécies. Sobre os perigos que o chorão representa para as espécies da Berlenga, consulta a página Habitantes em Perigo.


A Ilha e os Ilhéus

Rodeando a Berlenga, como se fossem pequenos guardiões olhando pela ilha-mãe, encontramos vários ilhéus, como este que é conhecido por Serro da Velha e que se avista, precisamente, do trilho da Ilha Velha. Continuando a percorrer este trilho, avistaríamos, um pouco mais à frente, o Ilhéu Maldito, que fica numa zona frequentada por corvos marinhos e airos. Percorrendo a orla da ilha de barco, muitos outros ilhéus encontraríamos. Juntamente com a Berlenga e as Estelas, representam os pontos mais altos de toda uma zona que noutros tempos esteve emersa e ligada ao continente, e que assim ficaram, como que espreitando acima do mar, quando, no fim da última glaciação, as águas invadiram esta região.


Contornamos a Ilha Velha e voltamos ao ponto de partida. Caminhamos um pouco até ficarmos na zona imediatamente acima do acampamento. Estamos agora numa espécie de fronteira entre as duas zonas principais da ilha: a Berlenga Grande e a Ilha Velha, ligadas por um estreito pedaço de rocha.


Memórias de um mosteiro desaparecido

Se nos virarmos para o lado do acampamento, teremos à nossa frente o Carreiro do Mosteiro. É uma pequena enseada onde aporta o barco que faz a ligação entre a ilha e a cidade de Peniche, no continente. Esta enseada termina numa praia, pequena mas capaz de fazer as delícias aos veraneantes mais exigentes, com as suas águas calmas e límpidas. A areia tem uma cor rosada, pois resulta da erosão do granito da mesma cor de que é feita a ilha. Onde agora vemos um
restaurante, junto à aldeia dos pescadores, houve, noutro tempos, um mosteiro, daí o nome desta
enseada.

Monges e piratas

O mosteiro foi construído no séc. XVI, por ordem da rainha D. Maria, para aqui se instalarem os monges da Ordem de S. Jerónimo, onde encontrariam um local isolado e sossegado (pensavam eles!)

Só que estes religiosos, desejosos de paz, não contaram com as pouco amigáveis visitas dos piratas, sobretudo os do Norte de África, que aqui vieram várias vezes para saquear o mosteiro, raptando os monges para com eles abastecer o mercado de escravos. Não é, portanto, de espantar, que, mais tarde, os monges tenham pedido à rainha D. Catarina para os transferir para outras paragens, lá para o continente, pois isto de deixar monges à mercê de piratas não podia dar bom resultado (sobretudo para os monges). O mosteiro acabou por ruir, dele restando pouco vestígios.

 


Uma maternidade para cações

Do lado oposto, vemos outra enseada. É conhecida por Carreiro dos Cações. Diz-se que, em tempos, estes peixes vinham aqui desovar. Cações já não se vêem, mas um observador atento e, de preferência, equipado com uns bons binóculos, pode ter a sorte de avistar alguns corvos marinhos. O mergulho veloz destas aves é simplesmente espectacular!

Dizem os geólogos que, daqui a muito tempo, esta porção de rocha que separa os dois carreiros e as duas partes da ilha desaparecerá de vez, passando então a haver, de facto, duas ilhas.


Aviso à navegação

Não fosse algum barco menos avisado, em noite de tempestade ou nevoeiro, perder o rumo e embater nos rochedos da ilha, foi aqui instalado um farol, no ano de 1841. Actualmente, funciona com um sistema automático, o que não dispensa a presença de um funcionário que olha pela sua manutenção. Situado no ponto mais alto da ilha, a 114 metros acima do nível do mar, a sua torre tem 29 metros de altura e, estando bom tempo, a luz que emite pode ser avistada a mais de 45 quilómetros de distância.

 


Donas e senhoras da Berlenga - as gaivotas

Continuemos então a nossa visita. À medida que vamos percorrendo a ilha, salta à vista quem é que reina por estas paragens: as gaivotas, precisamente! Sobretudo as da espécie a que os cientistas dão o nome de Larus cacchinans, e que na linguagem corrente se designa por gaivota-argêntea.

Avistamos centenas de gaivotas, umas esvoaçando sobre as falésias, outras calmamente pousadas, mas com ar de quem está atento ao que se passa, não vão os forasteiros desarranjar
o seu doce lar de pedra atapetado de flores e ervas rasteiras. Outras ainda, mostrando desconfiança perante os intrusos, zelam pelas suas crias.

Na imagem vemos uma progenitora junto a duas crias (uma delas escondendo-se sob o seu corpo), aparentemente protestando contra os olhares indiscretos dos visitantes que se deleitam a olhar para os seus filhotes de aspecto felpudo. As gaivotas começam a fazer os seu ninhos na Primavera, por volta de Março, altura em que há pouca gente na ilha. Por isso, não deixam de escolher locais próximos dos trilhos para depositar os seus ovos (geralmente três em cada postura) escuros e pintalgados.

É natural que, meses mais tarde, quando o bom tempo convida a visitar a ilha, se sintam incomodadas com a presença de estranhos. Afinal, quem gosta de ver a sua casa invadida, ainda mais quando se está a cuidar de filhos ainda pequenos e frágeis?


Na nossa Fortaleza virtual (a verdadeira, já a visitaremos daqui a pouco), propomos uma actividade sobre as gaivotas da Berlenga, que poderá ser realizada nas tuas aulas de ciências e através da Internet.


Memórias de batalhas

Um desvio leva-nos para um trilho que vai contornando a encosta como uma serpente. Descendo uma série de toscos degraus de pedra, chegaremos a uma das maiores atracções da Berlenga: a Fortaleza de S. João Baptista. Ao longe, vista do barco que aqui traz os visitantes, confunde-se com a ilha, pois é feita do mesmo granito rosado.

É quando se avista daqui, do caminho que até ele nos conduz, que nos surge com toda a sua beleza. Mas, se agora nos transmite uma sensação de paz e sossego, rodeado pelas águas límpidas do Oceano Atlântico que banham a ilha, tempos houve em que aqui se fizeram ouvir os sons da guerra.

Corriam os anos do séc. XVII. Reinava D. João IV. Antes dele, haviam ocupado o trono português três reis espanhóis (D. Filipe I, II e III). Receava-se que Espanha quisesse voltar a impor o seu domínio. D. João IV mandou então reforçar todas as fortalezas da fronteira e do litoral. A fortaleza da Berlenga, que fora talvez erguida em resposta às visitas dos piratas, foi então reconstruída.

Em 1666, 28 soldados comandados pelo cabo António de Avelar Pessoa resistiram ao cerco de uma esquadra espanhola que contava com 15 navios. Mesmo perante tanta desigualdade (28 homens contra a tripulação de 15 navios!), os invasores só alcançaram a vitória ao fim de 3 dias, e sem glória, pois conseguiram-no à custa da traição de um soldado português. Bem que estes soldados e o seu comandante merecem ser lembrados. Muito justamente, o barco que nos traz à Berlenga tem o nome de Cabo Avelar Pessoa.


Nas entranhas da ilha

As várias cavidades naturais que existem na ilha da Berlenga, como esta que avistamos do pátio exterior da fortaleza, são o resultado da acção erosiva que, ao longo de milhões de anos, as águas do mar foram exercendo sobre os duros blocos de granito que constituem a Berlenga.

Aproveitando zonas mais frágeis, onde se cruzam falhas geológicas, o mar escavou os chamados furados e covas, dos quais os mais espectaculares são a Cova do Sonho e o Furado Grande. Os furados são túneis que se prolongam para o interior da ilha. Por estar ao nível do mar, o Furado Grande, que atravessa a ilha de um lado ao outro, pode ser percorrido de barco. O Furado Pequeno, pelo contrário, encontra-se bem acima das águas, pois formou-se num época em que, devido às glaciações, o nível médio do mar era mais alto.

Numa desta grutas situa a imaginação popular os encontros secretos de D. Rodrigo e D. Leonor. Eram eles, segundo a lenda, um rapaz charmoso e uma rapariga igualmente cheia de encantos, vindos ao mundo em Peniche. Mal os seus caminhos se cruzaram, perderam-se de amores um pelo outro. Mas haviam nascido no seio de famílias rivais, que em nome do ódio que mantinham aceso entre si procuraram proibir o amor dos dois jovens. Possuídos pelo desgosto, Leonor fecha-se em casa derramando lágrimas, e Rodrigo vai procurar isolamento no convento da Berlenga. Mas todas as noites, à luz do luar, vem Rodrigo, guiado por um fiel pescador, a uma gruta onde se encontra secretamente com a dona do seu coração. Numa noite de mar revolto,
saltitava Leonor de rocha em rocha, quando um pé lhe escorrega e as ondas imediatamente a arrastam. Desaparece nas águas furiosas, sobre as quais fica boiando o seu véu. Desesperado, ao deparar-se com este trágico sinal, Rodrigo grita pela amada e lança-se ao mar, do qual, como Leonor já não regressará. Assim ficaram unidos para sempre, na imensidão e no silêncio do oceano.


Pequenas grandes maravilhas

Na Primavera, quando os dias se tornam mais soalheiros e as temperaturas ficam mais amenas, a ilha reveste-se de um colorido manto de flores.

Mas quem a visita nos finais de Junho, quando o calor do verão já aperta, depara-se com uma vegetação não muito atraente, com muitas plantas já secas, e com as flores a distribuirem-se por pequenas manchas dispersas.

É provável que, por essa razão, não se aperceba de que está perante uma flora riquíssima, que conta com cerca de 100 espécies diferentes. Algumas delas existem apenas na Berlenga: outras, para além de marcarem presença na ilha, apenas podem ser encontradas no litoral ibérico.

A sua sobrevivência é o resultado de uma persistente luta contra as difíceis condições da ilha: pouco solo, escassez de água doce, ventos fortes carregados de sal. Destruir esta vegetação é desrespeitar uma longa história de adaptação e sobrevivência. É por isso que, ao longo da visita, não devemos sair dos trilhos. Se o fizermos, podemos estar a pisar uma autêntica raridade vegetal sem sequer nos apercebermos disso!


Para aprenderes mais sobre esta preciosa flora, recomendamos-te uma visita à página Flora da Berlenga, incluída na secção Os Habitantes. Aqui se inclui, também, a página Habitantes em Perigo, onde encontrarás referências às ameaças que actualmente pairam sobre algumas plantas da Berlenga.


Dois habitantes muito especiais

Eis aqui um momento digno de registo, em que podemos observar o convívio entre duas das espécies mais emblemáticas desta ilha: a gaivota-argêntea, ave cuja presença se faz sentir logo que chegamos à ilha, e a Armeria berlengensis, planta endémica da Berlenga. Mas esta cena não é rara, nem acontece por acaso. É que as gaivotas aproveitam o tufo formado pelos caules e folhas da Armeria para depositarem os seus ovos - afinal, para quê terem o trabalho de construirem um ninho, se a natureza, aparentemente, lhes oferece este, já pronto a ser usado? A Armeria é que, se pudesse falar, certamente apresentaria uma opinião diferente. É que o pisoteio das gaivotas e os seus excrementos, que tornam o solo ácido, não são nada benéficos para a sua sobrevivência.


Esconderijos... pouco escondidos

À medida que vamos percorrendo o trilho da natureza, aqui e ali vamos avistando pequenos orifícios como este, que adivinhamos serem moradias de habitantes mais furtivos, que, ao contrário das gaivotas, não fazem questão de marcar presença face aos visitantes que vêm invadir os seus domínios. Ratos, lagartos e coelhos esforçam-se por encontar abrigos como este, aqui em que o solo é escasso e em que, quando há alguma cavidade natural pronto a ser habitado, o mais provável é que, quando lá se chegar, já haja algum inquilino. Conseguir abrigo é apenas uma das muitas dificuldades colocadas aos habitantes da ilha, que, face às suas condições difíceis, têm constantemente que dar o seu melhor para conseguirem sobreviver e reproduzir-se.


Outras ilhas nos acenam

Chegando ao fim do trilho, é uma boa altura para nos distrairmos um pouco da ilha que acabamos de percorrer e virarmos a nossa atenção para o mar imenso que a rodeia. Acenando-nos de perto, na sua altiva pose rochosa, ali estão as Estelas; mais longe da vista, os Farilhões, e do lado oposto a costa de Peniche. Sentimos então o previlégio de nos encontrarmos num verdadeiro santuário da natureza, que o mar afasta dos rebuliços da vida moderna, e que com a sua beleza agreste nos faz esquecer as agitações do dia-a-dia, levando-nos a sentir uma paz interior e um deslumbramento que só por si nos ensinam como é importante preservar locais como este. E deixamos o olhar perder-se na imensidão das águas, que nos convidam a sonhar com novas viagens, em busca de paraísos abraçados pelo oceano que ainda resistam à voracidade do Homem.