Associação Cultural Moinho da Juventude
Tendo em atenção o desenraízamento que os migrantes enfrentam no seu dia-a-dia e tendo em conta o trabalho de intervenção comunitária procura-se que os valores culturais sejam potenciados e reconhecidos.
Os parceiros nórdicos do Projecto NOW em 1994 testemunharam que o intercâmbio com o Moinho provocou uma viragem nos seus métodos de formação:
"Aprendemos convosco a importância de partir do reconhecimento da identidade cultural das pessoas".
Reconhecendo e partindo dos valores culturais dos formandos, a relação entre formadores e formandos altera-se fundamentalmente.
Um exemplo:
As mulheres do grupo de "Finka Pé" sentiam intuitivamente a importância do batuque, que faziam nas festas de casamento e baptizado. Estavam conscientes da sua identidade cultural, uma identidade não construída pela negativa, contra ou a favor de uma referência europeia, mas pela positiva, por aquilo que é. O batuque é uma integração do corpo, dos sentimentos: dançando e cantando vão exprimindo os medos, receios, preocupações, vão dando conselhos e esperanças, vão reflectindo sobre o papel da mulher.
Os seus filhos tinham no início uma certa apreensão perante a participação das mães nos batuques com portugueses presentes: é a complexidade da convivência de culturas.
O reconhecimento que o Finka-Pé obteve pela sua actuação no programa ACARTE na Gulbenkian em '93 despoletou um salto na auto-estima das mulheres, mas sobretudo um reconhecimento da cultura dos pais pelos filhos.
A vida quotidiana está integrada na sua arte que é a arte do corpo enquanto vivência absoluta das suas emoções, dos seus pensamentos, sensações e problemas.
A formação desenvolve-se na base do que as pessoas são capazes de fazer para que se maximizem as suas capacidades e descobrirem potencialidades latentes.
A descoberta de lacunas na formação é feita pelos próprios formandos e a motivação para preencher lacunas detectadas é consequentemente mais forte.
Utilizando o instrumento de validação de competências disponível na Internet, as auxiliares de educação utilizaram os critérios de desempenho para construir o seu portfólio. A construção deste portfólio utilizando fotografias, pequenos relatos, extractos de vídeo, certificados, testemunhos fez-lhes descobrir a riqueza da sua formação informal e formal, que adquiriram ao longo da vida. Mostram o seu portfólio com orgulho aos seus filhos.
O instrumento ajuda para descobrir as lacunas na formação e com orientação eficaz estão motivados para procurar resposta.
Outro exemplo: um grupo dinamizador de moradores desenvolveu uma intervenção piloto numa área delimitada do bairro. Realizaram-se entrevistas aos vizinhos a fim de permitir o levantamento das suas capacidades e em simultâneo foi construída a maqueta da respectiva área de intervenção. Depois de efectuadas reuniões com os moradores, definidas as prioridades e acção e os objectivos de mudança a alcançar, estes moradores foram divididos em grupos consoante o tipo de necessidades sentidas por eles: o grupo dos transportes, o grupo da segurança, o grupo do saneamento básico e o grupo dos serviços. Cada um destes levou a cabo diversas acções consideradas prioritárias.
Consideramos 'Empowerment' o processo de indivíduos e grupos locais ou comunidades que vão desenvolver as suas capacidades e vão adquirir o poder de uma participação activa.
As iniciativas formativas surgem a partir das preocupações dos moradores. Os formandos têm oportunidade de apresentar propostas de actividades no âmbito da formação ou complementares à mesma cuja organização, estruturação e dinamização são da sua responsabilidade. Estamos a falar de acções de sensibilização relacionadas com a saúde e educação, actividades culturais e recreativas dirigidas à comunidade, a redacção do boletim do curso.
Estamos também a falar da elaboração de um portfólio pessoal e profissional que com o apoio do mediador vai sendo construído individualmente e que permite uma reflexão sobre o seu passado, uma valorização e uma perspectivação dum Projecto de vida; ou ainda da elaboração de um regulamento do curso - os formandos com a colaboração dos responsáveis definem as regras de funcionamento do curso.
Já ao nível da comunicação, o 'diário de curso' é construído. Este documento permite a formadores e formandos fazer um registo diário da formação e desta forma uma partilha de informação por todos.
Quanto à negociação, sublinhamos a relação próxima entre os formadores, formandos, coordenação em que um acompanhamento directo e personalizado permite a discussão de ideias, partilha de problemas, análise de situações. Assim, a filosofia de base é que de forma participada sejam os formandos a encontrar soluções, a definir estratégias de resolução de situações.
Mas 'empowerment' não tem só a ver com o processo de construção e desenvolvimento de capacidades, mas também com problemas estruturais: a constelação política, a dominância cultural, relações sociais.
Não é fácil este processo, porque a nossa sociedade faz um constante apelo à alienação e concentração do poder. Quem está no poder, gosta de mostrar os seus galões.
Pretendemos que pouco a pouco cresça a disponibilidade das autoridades para terem ouvidos e olhos para as capacidades e reflexões dos moradores.
A aprendizagem Interactiva assenta no principio que a formação funciona em dois sentidos. A mais valia dos cursos de formação não se destina exclusivamente aos formandos, mas também aos formadores, que descobrem novos valores culturais, atitudes e conhecimentos.
Os formadores aprendem a capitalizar as próprias experiências dos formandos. Além disso, a ligação entre os módulos e entre estes e os outros núcleos da associação são um pilar base na filosofia de formação de qualquer curso.
Alguns exemplos de módulos de formação no curso da carpintaria e a sua interligação:
| Interligação entre módulos | Ligação com os outros núcleos da Associação |
No módulo de Saúde e Segurança prepara-se uma Mala de Primeiros Socorros para o atelier de carpintaria. Prepara-se igualmente um manual simples de Primeiros Socorros
|
Os formandos do curso de carpintaria preparam uma demonstração de primeiros socorros para crianças e adultos da Associação Os formandos distribuem o manual de Primeiros Socorros pelos principais núcleos da Associação
|
| Interligação entre módulos | Ligação com os outros núcleos da Associação |
Elaborar em 'Word' o portfolio preparado e organizado no módulo de Procura e Criação de Emprego Elaborar em 'Excel' orçamentos dos trabalhos a realizar na carpintaria Elaborar em 'Word' uma nota de encomenda para registo dos trabalhos solicitados à carpintaria Realizar em 'Power Point' uma apresentação das peças construídas na carpintaria Efectuar consultas de ofertas de emprego na Internet - levar para o módulo de Procura e Criação de Emprego Organizar em 'Word' um manual simples de Primeiros Socorros, preparado no módulo de Saúde e Segurança |
Elaborar em Publisher um cartaz sobre o curso - a utilizar em iniciativas de apresentação do Projecto Elaborar em Publisher uma folha informativa do curso (trimestral - 1 folha): passatempos, informação sobre os formandos, sobre o que aprendem
|
Semanalmente a equipa técnica do Projecto encontra-se para afinar estratégias. Com uma periodicidade mensal formandos e coordenação reúnem para troca de impressões e avaliação da formação desenvolvida. Através de metodologias activas - dramatizações, chuva de ideias, jogos de grupo - são analisadas as diferentes componentes do Projecto: formadores, conteúdos, metodologias de trabalho. Os formandos constituem também um conselho de grupo. Dentro deste conselho de grupo é eleito um representante que funciona num sistema rotativo, participando nos encontros com as famílias e nas reuniões de formadores.
Mensalmente todos os formadores, equipa técnica e coordenação organizam uma avaliação e o planeamento do próximo mês.
Estas pessoas participam na selecção dos formandos identificando situações prioritárias, fornecendo informação relevante para análise; "apadrinhamento" dos formandos dada a relação de proximidade com os mesmos, com a família e a comunidade, elementos essenciais para que o processo seja desenvolvido com êxito.
Estamos também a referir-nos a animadores e mediadores que em virtude da compreensão da motivação e da capacidade que têm para trabalhar com a própria comunidade, apoiam no diálogo e relação entre todos os intervenientes da formação. São, muitas vezes, estes elementos da equipa que em situação de conflito intervêm em primeiro lugar, que contactam com a família, que falando a mesma língua e com quem os jovens se identificam, que garantem a constatação de problemáticas mais intimas e mais profundas.
A formação em curso, apenas constitui mais um processo entre tantos outros. Significa isto dizer que paralelamente à formação procura-se que de uma forma participada e envolvente, se dê respostas a situações problemáticas, se incentive para uma cidadania plena. No caso de se tratar de jovens, a articulação e o trabalho com as famílias/vizinhos é determinante. Neste sentido desenvolvem-se as seguintes actividades:
No caso dos formandos que são adultos procura-se articular iniciativas com a formação. São disso exemplo os pedidos de apoio na legalização, no pedido de rendimento mínimo, questões de saúde - planeamento familiar, respostas educativas e sociais para os filhos ou outros familiares.
Estas são, portanto, as linhas orientadoras de qualquer processo formativo desenvolvido ou a desenvolver que serão intensificadas, ajustadas, ou estruturadas de acordo com o grupo e a área de formação.
É difícil traduzir por escrito, tudo aquilo que se vive de forma intensa e próxima no quotidiano deste "Moinho". As questões aqui apresentadas e descritas têm-se traduzido em alguns êxitos mas principalmente em momentos de aprendizagem contínua e sistemática .
Por isso todos aqueles que desejarem conhecer esta realidade de perto, que tiverem interesse em conversar, de forma pessoal e ao vivo, com formandos, formadores, coordenação, sejam bem-vindos para uma troca de experiências!