Associação Cultural Moinho da Juventude
No Alto da Cova da Moura, mais de 250 crianças passam a sua primeira infância em condições ultra precárias.
A situação vivida pela população infantil entre os 0 e os 3 anos de idade no Bairro do Alto da Cova da Moura, na Buraca, merece a urgente e cuidada atenção das instâncias estatais e órgãos oficiais.
É imprescindível a aprovação imediata de projectos de intervenção prioritária inovadores, que vão ao encontro das necessidades da população em causa. Formulámos uma proposta de plano de apoio numa perspectiva de prevenção primária e de promoção da autonomia pessoal, conducente a um estatuto de verdadeira cidadania.
O levantamento foi feito com o apoio de moradores e utentes de amas
Existem à volta de 18 lugares de acolhimento de crianças (sem qualquer reconhecimento oficial) no nosso bairro. Acolhem consoante este levantamento provisório 249 crianças, de idades que vão desde os primeiros dias de vida até ao momento em que ingressam na escola primária.
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Total de crianças |
1 ama ( com apoio da Segurança Social) |
15 |
1 educadora com 4 ajudantes |
46 |
1 ama (com apoio esporádico das filhas) |
10 |
1 ama (com apoio esporádico duma vizinha) |
7 |
1 ama com 2 ajudantes |
27 |
1 ama com 2 ajudantes a meio tempo |
30 |
1 ama |
15 |
1 ama |
6 |
1 ama |
4 |
1 ama |
5 |
1 ama |
6 |
1 ama com 2 ajudantes |
27 |
1 ama |
12 |
1 ama |
4 |
1 ama |
10 |
1 ama |
15 |
1 ama |
6 |
1 ama |
4 |
Total |
249 |
Por motivos de ordem económica e social, cada vez mais a família se vê incapacitada de fazer o acompanhamento necessário e adequado à construção da individualidade das suas crianças, garante de um desenvolvimento integral enquanto ser pessoal e social, passando esta função para a responsabilidade das amas, infantários e creches.
No Bairro do Alto da Cova da Moura estes lugares de acolhimento raramente obedecem a critérios pedagógicos, por nem sequer estarem regulamentados ou oficializados. Constatamos que, em muitos casos, não existem mesmo condições mínimas de garantia de desenvolvimento de actividades desta natureza.
Para responder às necessidades dos pais, surgiram cerca de 18 lugares de acolhimento de crianças, no bairro, sem qualquer reconhecimento oficial. Apenas uma ama tem apoio da Segurança Social.
As amas não têm qualquer formação adequada ao exercício da função que vêm desempenhando já há vários anos, mas acolhem, num total, cerca de 250 crianças , de idades que vão desde os primeiros dias de vida até ao momento em que ingressam na escola primária.
Há várias situações em que grupos de 12/14 crianças, senão mais, se encontram fechadas numa divisão exígua que faz de quarto, sala de estar e sala de entrada, com passagem permanente de pessoas, sem qualquer brinquedo ou material que possam manipular e utilizar para promover a sua própria aprendizagem e garantir um processo de desenvolvimento que deveria ser progressivamente construído e adaptado às várias realidades e experiências individuais.
Algumas crianças são filhos de trabalhadores indocumentados, que para assegurar o seu posto de trabalho têm de deixar a sua criança recém-nascida na ama. Por característica própria do trabalho precário, o salário é irregular e muitas vezes não o recebem durante meses não podendo consequentemente pagar à ama com regularidade, tendo que esperar que esta 'por especial favor' lhes continue a receber a criança ou que procurar outra ama que lhes aceite a criança.
Encontramos crianças que ficam na ama desde às 5h da manhã até às 22 h. Outras ficam lá a semana toda porque a mãe encontrou trabalho precário num local longínquo. Há crianças com deficiências físicas e psicológicas - algumas vieram de África para tratamento - e que não têm o pós tratamento médico e psicológico necessário.
Muitos dos pais que entregam os seus filhos às amas, não tiveram eles próprios o devido acompanhamento para aprender as suas tarefas parentais.
Alguns dos pais/adolescentes praticam actos ilícitos. Constatámos no decorrer do Projecto 'O PULO' , que um acompanhamento adequado dos seus filhos pode provocar uma alteração no comportamento dos próprios pais.
Importante de referir: a não existência da instituição "Avós" , transmissores de valores e de referenciais, porque ficaram em África.
Constata-se que as crianças vêem diminuída a qualidade da atenção que lhes é dispensada no período de vida em que as suas capacidades estão, por um lado no seu auge, para receber informações e assimilar conceitos, por outro lado diminuídas para expressarem e seleccionarem o que necessitam e lhes interessa desenvolver.
Acrescente-se a este facto a falta de critérios existentes nas experiências, vivências e acompanhamento que lhes são facultados e temos crianças:
A procurar dar resposta às necessidades de apoio e acompanhamento destas crianças, cujos pais têm que trabalhar para fazer face às solicitações da sociedade em que estão inseridos, temos um grupo de pessoas e ou instituições, melhor ou pior intencionadas, preparadas e equipadas, mas sem qualquer vínculo entre si que possa definir orientações, avaliar procedimentos e determinar directrizes e objectivos a alcançar.
Estas crianças são à partida vítimas das circunstâncias sociais determinadas pelo seu local de nascimento, local esse onde se irá processar toda a sua aprendizagem inicial, base do seu futuro enquanto ser social.
As respostas encontradas pela comunidade para suprir as suas carências são de louvar porquanto são as únicas de que dispõe toda uma população jovem e activa, para quem a sociedade portuguesa ainda não encontrou as soluções adequadas ao seu enquadramento.
Assistimos diariamente a debates infindáveis e estéreis sobre violência e criminalidade porquanto não apontam para a solução do problema na base. Crianças vítimas de mau acompanhamento no seu desenvolvimento precoce, tornam-se rapidamente agressoras, deixando estas de ser consideradas como crianças com Direitos a serem respeitadas e defendidas, mas que são antes espezinhadas e ignoradas, para passarem ao estatuto de bandidos e de marginais, sem se aperceberem que falam exactamente da mesma realidade e dos mesmos sujeitos.
A actuação tem que ter início precocemente, junto das crianças de idades compreendidas entre os 0 e os 3 anos de idade, fase de formação dos conceitos básicos, determinantes de todo o processo de construção da pessoa. As amas precisam urgentemente de formação para fazer este acompanhamento.
Dando seguimento à prática que caracteriza desde o momento de formação da Associação Cultural Moinho da Juventude, apresentamos um projecto que envolve:
1. Alargamento da Creche Familiar existente de 6 amas para 12 amas, abarcando um total de 48 crianças.
2. Abertura do Centro de Acolhimento, funcionando nos dias úteis das 5h30 até às 21h30, abarcando 48 crianças.
Cada ama fica responsável para 4/6 crianças entre os 3 meses e os 3 anos
Cada criança tem direito a um máximo de 8 horas de acolhimento por dia, no Centro.
3. A Formação das amas e conjuntamente com as amas:
A formação dos pais das crianças
Princípios de base da formação:
reflexão sobre as experiências das amas e partilha de saberes
empowerment
gender
uma educação intercultural
"É pela prática e pela acção que a libertação e a autonomia se atinge". isso é o que as «amas» procuram na sua 'profissão', não reconhecendo contudo a importância que têm elas próprias na construção de procedimentos nas crianças que os levarão a alcançar essa mesma autonomia e libertação, objectivo máximo da prática educativa.
Importa consciencializá-las desse seu papel fundamental, através da formação que terá a duração de 1 ano, seguindo-se uma « metodologia interactiva» e tendo como base a experiência de cada uma e do grupo no geral.
I
Sessões práticas de formação com cada uma das amas, no seu próprio espaço e com as respectivas crianças.
1 H semanal, em horário flexível e a combinar por forma a poderem observar-se os momentos fulcrais na intervenção das amas.
II
Sessões práticas de formação com cada uma das amas, no espaço da Associação e da Comunidade e com as respectivas crianças.
2 vezes por mês, a combinar com cada uma das amas.
III
Sessões de reflexão com cada uma das amas sobre as práticas observadas.
2 vezes por mês, a determinar conforme disponibilidade de horários e procurando que seja no dia em que a ama venha à Associação com o seu grupo, ficando as crianças na 2ª hora com alguém responsável, destacado para o efeito.
IV
Sessões de reflexão com todas as amas em formação sobre casos concretos e temáticas propostas por elas e pelos formadores, face às dificuldades verificadas e sentidas.
1 vez por mês, num Sábado (dia em que estarão mais disponíveis), durante 3 horas
V
Módulos de Formação teóricos
1 vez por semana durante 3 horas, para tratar dos seguintes temas:
Estádios e fases de desenvolvimento das crianças dos 0 aos 3 anos.
Alimentação
Higiene e Saúde
Contactos com os Pais e Responsabilidade Parental
VI
Encontros com os Pais de cada uma das amas
De início acompanhadas pela Educadora responsável mas numa perspectiva de autonomizá-las progressivamente.
O local será deixado à escolha de cada uma delas, pondo a Associação as suas instalações à disposição.
Prevê-se a utilização do material do 'PULO' para acompanhar a educação parental nas próprias casas dos pais durante o fim de semana ou à noite.
VII
Encontro/Convívio na Associação aberto a todas as amas e respectivos Pais em 3 períodos do ano: Natal, Carnaval e Verão (Julho).
Todos os elementos responsáveis pela educação das crianças devem articular-se entre si e interagirem por forma a estabelecerem uma relação próxima e a promoverem um conhecimento efectivo das necessidades próprias e comuns. Deste modo poderão elaborar, em conjunto, estratégias de actuação adequadas às necessidades e interesses das crianças que lhes são comuns, criando um vínculo entre si.