Associação Cultural Moinho da Juventude
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“Fico  chocada com a perspectiva de arrasar a Cova da Moura. Trabalhar na Cova da Moura foi descobrir um outro mundo, por detrás dos estereótipos e das representações negativas,  repisadas  por uma comunicação social sensacionalista. Um outro mundo que ao invés de provocar o medo e a insegurança tão noticiados, revelou-me pessoas, pessoas que batalham todos os dias, para melhorar a forma como vivem. Pessoas que encontram nas ruas e na própria "arquitectura" do bairro a oportunidade de construir um espaço de interacção, de vizinhança, de solidariedade e de laços.

Laços valorizados por uma organização horizontal do espaço edificado...com as próprias mãos. Não compreendo e rejeito a opção de "destruir",  sobretudo tratando-se de algo que foi construído com amor e que nasce de um esforço de acção colectiva;  algo que nasce no seio da própria comunidade. Rejeito e estou chocada, e penso...como é que as decisões são tomadas sem consulta à população? Sem consultar aqueles que supostamente beneficiarão da mudança e que são os principais interessados?”

Sandra Almeida
Psicóloga

 

Quando entrei pela primeira vez no Bairro da Cova da Moura senti medo. É por isso que percebo que se queira arrasar o bairro.
Afinal, a vontade de destruir é sempre o primeiro instinto frente ao medo. É também isso que aprendem muitos jovens deste bairro. Que quando se tem medo se deve destruir e que quem é mais forte, mais violento, mais importante pode destruir mais e melhor.
Mas... e depois? Que fazemos depois? Porque nada desaparece, nem se destrói completamente e tudo se transforma. E o medo também.
Hoje, quando venho à Cova da Moura venho para construir. É mais difícil, está bem... mas tenho menos medo. E menos medo do medo. E mais amigos com quem o partilhar. E vale a pena.

BRUNO MARTINS SOARES,
Formador na Associação Cultural moinho da Juventude

 

Um outro olhar sobre o Bairro da Cova da Moura

Longas páginas de diversos jornais, têm de quando em quando, tentado impor-nos arrepiantes visões, de um bairro da Cova da Moura próximo da metáfora do Inferno. As linhas que se seguem resultam dos inúmeros momentos aqui vividos e, sobretudo, resultam do estreito contacto com tantas famílias que nos abriram as suas portas e nos deram o  melhor lugar à sua mesa. São, por isso, um convite a um olhar apenas diferente, sobre este bairro, que podia ser  o teu.

Ou ...quando desistimos de ver...

5h da manhã, na penumbra da noite e por entre vielas e ruas labirínticas a azáfama está na rua, o bairro acordou. Os primeiros a abrir as suas portas são pais, pais e mães que levam consigo nos braços, os seus filhos. Um a um, são entregues nas casas de devotadas mulheres, as quais, são as suas únicas esperanças para que a angústia da incerteza, não derrote a fé de que o dia corra bem, e que o "pão", possa à noite entrar em suas casas...
Nas outras portas que se abrem, estão as tais mulheres que, àquela hora, tudo já têm preparado para acolherem, até à noite, o sono e a vida de tantas crianças, filhas deste bairro.
São as Rosas, as Adelaides, as Hermínias, são as Lurdes, são tantas mulheres que não são indiferentes ao sofrimento, à discriminação e à solidariedade. Nas suas humildes casas conseguiram organizar um pequeno espaço, acolhendo assim com profunda dedicação, estas crianças, dia a dia, mês a mês, ano a ano.
Há quem lhes chame "mães emprestadas", é também com elas, que estas crianças descobrem que são amadas e por isso desejadas. Do lado oposto, sabemos que muitas vezes espreita a negligência e o abandono, hipotecando-se assim o exercício mais elementar do direito à vida, em condições de dignidade social, cultural e económica. Mas, a essa hora, a incerteza paira também na vida de muitas outras famílias deste bairro. Neste dia, que agora começa, o estigma de se ser preto, e a certeza de se ser pobre e discriminado, vai agora, igualmente despertar... (e as interrogações sucedem-se, será que hoje vou ter trabalho?... )
Contudo, um novo dia começou, o bairro, serenamente, afirma as suas multicores e os seus abundantes odores povoam o ar, em sinal de memórias com cor de África. Ao som de  mornas, rap e algum rock importado, alguns jovens desenham o itinerário do seu dia, ainda que o inesperado possa ocupar a maior parte dos seus destinos diários. É nesta amálgama que tudo se confunde, é nesta amálgama que a marginalidade e a delinquência espreitam a sua oportunidade, confundindo os olhos de quem só ao longe tem coragem de espreitar este bairro, trocando injustamente a alegria, a solidariedade e a dignidade (daqueles que, desesperadamente, lutam momento a momento contra a adversidade, e contra a injustiça), pela sombra e pelo estigma gratuito de se pensar que neste bairro não há pessoas de bem...
É pois, animados pela convicção de que as perturbações sociais, a exclusão social e a pobreza, são antes de tudo o resultado de uma falsa atitude de não se querer reconhecer que o verdadeiro desenvolvimento é um fenómeno essencialmente de natureza política, que nos revemos na luta diária, daqueles que, em desespero, reivindicam uma cultura de cidadania, de justiça social e de responsabilização, onde a condição social,  não pode mais ser um estigma, que limite a essência e a compreensão do conceito de Homem. Por tudo isto, caminhámos na direcção deste bairro e, trocando cumplicidades, trabalhamos por um novo dia...

Carlos Simões
Professor no ISPA

 

Reconverter o bairro parece-me a solução mais adequada para a Cova da Moura. Temos obrigação de preservar o que ainda existe - o sentido comunitário e o espírito de entre-ajuda - valores raros nas nossas grandes cidades cada vez mais pseudo-desenvolvidas.

 

(...) Gostei das gentes do bairro, parece que se vive numa pequena aldeia. Vive-se muito na rua. Mesmo as construções desordenadas com aparência de inacabadas, acabam por se tornarem alegres. (...)
Nos cafés e mercearias era bem tratada e recebida e as pessoas com quem me cruzava nas ruas não tinham qualquer aspecto ameaçador, antes pelo contrário, algumas cumprimentavam-me, pois já era conhecida. Deslocava-me três ou quatro vezes por semana à Associação, por vezes saía do bairro de noite e nunca tive problemas.
Penso que a facilidade em me deslocar no bairro e ser “bem recebida” e aceite se deveu ao facto de estar a colaborar com a Associação. Apesar de nem toda a população ser sócia e de utilizar os serviços, esta é uma organização respeitada no bairro e esse respeito é extensível às pessoas que lá trabalham, colaboram ou a visitam. Provavelmente, algumas características pessoais terão contribuído para este processo de integração no terreno, nomeadamente a ausência de preconceitos e o respeito pela população. (...)
(...) O conhecimento do bairro e da Associação, permitiram-me observar uma realidade que me era desconhecida. Apesar de, antes do estágio, sentir um grande respeito pelas populações desfavorecidas, penso que a imersão nesta comunidade veio aumentar ainda mais o respeito pelas culturas diferentes. (...)
(...) Finalmente, um dos pontos fortes do estágio foi o conhecimento que obtive do bairro do Alto da Cova da Moura. Aprendi que as comunidades desfavorecidas são-no, não por serem desfavorecidas culturalmente, mas porque vivem em condições económicas e sociais desfavoráveis. (...) Na festa de aniversário da Associação tive oportunidade de assistir a uma actuação do grupo Finka Pé. Um grupo formado por mulheres cabo-verdianas de todas as idades que dão largas às suas emoções tocando um batuque de pano. O jogo de Ouril deixou-me curiosa. É um jogo difícil que exige concentração, cálculo, memória e capacidade de antecipação das jogadas do adversário. Nesta festa, algumas raparigas faziam penteados africanos aos visitantes. Pude apreciar a realização deste trabalho demorado e complexo. Depois de ver como se faz, passei a valorizar o sentido estético deste povo, tão pouco (re)conhecido pela cultura dominante.

IN: “Experiência e formação: Do reconhecimento e validação de competências aos estágios curriculares em Ciências da Educação”  Susana Pereira da Silva, Setembro de 2001. (Relatório de estágio da área de especialização de Formação de Adultos, Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, Universidade de Lisboa, coordenado por Prof. Dr. Belmiro Cabrito, Prof. Dr. Rui Canário, Dra. Carmen Cavaco).

 

A minha casa antes e agora

A minha casa antes era assim:
Tinha quintal. O corredor dava para jogar futebol. Tinha festas todos os dias.

 

Agora: não tem quintal,
o corredor não dá para jogar futebol,
não temos festas todos os dias.
A minha é assim   

                                                  Criança da 4ª classe
(realojada)

 

 

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