Associação Cultural Moinho da Juventude
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Workshop - 17 de Junho de 2005
"A Requalificação é possível se a gente quiser"

Este workshop proporcionou uma sessão de reflexão e de análise das várias alternativas que se poderiam colocar na reabilitação do bairro. Decorreu de forma muito dinâmica e com o interesse de todos os presentes.

O Sr. Presidente da República lançou ". ..um apelo aos autarcas para estarem disponíveis para resolver o problema com a população e respeitando a sua história e os seus direitos enquanto cidadãs que contribuem para a economia de Portugal"...

INTERVENÇÕES

Mesa constituída por:

Manoel Ribeiro, Arquitecto brasileiro que tem desenvolvido a sua acção, nestes dois últimos anos, na requalificação de favelas do Rio de Janeiro.

Isabel Guerra, Socióloga no ISCTE, com muitos trabalhos escritos sobre realojamento e seus aspectos positivos e negativos.

Isabel Raposo, Arquitecta, orientadora de estágio de 18 alunos da Faculdade de Arquitectura, que escolheram desenvolver o seu estágio no Bairro da Cova da Moura, tendo apresentado algumas hipóteses de Qualificação do Bairro.

Marília Garcia, Educadora de Infância, destacada do Ministério da Educação para o Moinho da Juventude, moderadora do workshop.

Maria Antónia Ramos, Professora do Ensino Secundário, que representa a população do Bairro da Cova da Moura, uma vez que nasceu, foi criada e é aí residente.

 

O Arquitecto Manoel Ribeiro foi o 1º orador, apresentando algumas imagens que possibilitaram à assistência fazer uma ideia sobre as características do Morro da Serrinha, favela onde desenvolveu as acções, com as suas limitações e riquezas. Deixou bem patente com as suas palavras, que o investimento humano e material necessários à resolução do problema de reconversão das favelas, é bastante inferior quando a mesma é feita com as populações e indo ao encontro das suas propostas, fazendo-se o aproveitamento das suas capacidades, habilidades, mais valias e respeitando os seus gostos, valores, hábitos e costumes.

..."A favela interage com a cidade. Traz-lhe benefícios e enriquece-a sob o ponto de vista cultural. A interacção entre o saber técnico e o popular é fundamental para a resolução dos problemas"...

A cidade é a diversidade. Nesta reside a sua riqueza.

Este projecto foi apoiado pela Câmara que abriu uma secretaria específica e optou por dar um crédito especial para as famílias poderem fazer a reconversão das próprias casas.

 

De seguida fez a sua intervenção a socióloga Isabel Guerra, falando um pouco da sua experiência sobre bairros de realojamento e dando-nos a sua perspectiva quanto e esta forma de resolver o problema habitacional das populações.

 

..." Ao passarem para os bairros de realojamento as famílias perdem os seus recursos criativos de sobrevivência económica ( cabeleireiros, restaurantes, artesanato) deixam de existir."

..." É fundamental respeitar-se os projectos de vida das famílias. Bairros como o da Cova da Moura, existem muitos na zona da grande Lisboa. São Bairros rejuvenescidos numa população envelhecida. Há que aproveitar e valorizar esta mais valia e investir nas suas potencialidades e capacidades."

Da parte dos moradores foi feita uma apresentação pela psicóloga Lieve , residente no Bairro desde 1982, uma perspectiva histórica sobre a evolução do Bairro, com suas dificuldades, conquistas, expectativas e sonhos para um futuro que se espera mais risonho e que tenha em conta e respeite os interesses e necessidades dos próprios moradores.

Após esta intervenção o Sr. Presidente da República fez uma intervenção de despedida, para prosseguir a sua visita.

 

A finalizar fez a sua intervenção a arquitecta e professora Isabel Raposo, apresentando os alunos que sob a sua orientação fizeram um trabalho académico sobre a requalificação da Cova da Moura, tendo estes apresentado os vários trabalhos realizados pelos 5 grupos realçando os aspectos de confluência entre eles, dando origem a uma maqueta.

Consideraram um trabalho não acabado e ainda alvo de reflexão e de alterações, porquanto algumas questões tiveram que ficar em aberto por falta de dados concretos sobre a possibilidade ou não de colaboração da Câmara.

Referiu que 2 alunos tinham escolhido fazer o seu estágio no Moinho e dedicar-se à questão de Qualificação do Bairro.

 

A Arquitecta Helena Roseta, Presidente da Ordem dos Arquitectos interveio, fazendo uma análise histórica do processo seguido pelos vários governos sobre realojamento, todos eles com inúmeros problemas de vária ordem, lamentando que ainda não tenha sido feita uma aprendizagem com os erros continuando-se com uma política de realojamento das populações sem as envolver e sem ter em conta as suas propostas, interesses, necessidades e diversidade.

Se tal fosse feito, poder-se-ia contar certamente com as suas disponibilidades para colaborar na resolução dos seus próprios problemas habitacionais, sendo tempo de se começar a investir mais neste tipo de acções, sugerindo que as verbas para esse investimento pudessem vir das que naturalmente deixariam de ser necessárias para o aumento de efectivos na polícia. Pôs-se à disposição do Moinho, assim como todo o gabinete da Ordem, para ajudar na solução do problema de Qualificação do Bairro da Cova da Moura, "...que considerou ser um "Bairro Histórico" declarando que iria trabalhar numa tese sobre o assunto, uma vez que se não abatem bairros históricos" (citação).

 

Após as intervenções dos alunos abriu-se o debate tendo tomado a palavra um residente do bairro que lamentou a falta de interesse e de compreensão por parte da Câmara para com os habitantes do bairro que todos os anos pagam as suas contribuições e cumprem com os seus deveres de cidadãos, apontando como prova disso a recusa do Sr. Presidente da Câmara de entrar na sala onde se estava a debater essa mesma questão.

Seguiu-se um outro morador, que fazendo uma retrospectiva sobre a formação do bairro, deixou bem claro que nele residiam na sua maioria gente trabalhadora que construiu toda a sua vida e história neste bairro, não sendo justo por isso que agora, se passasse uma esponja por essa história individual e colectiva e se desrespeitasse os direitos de cidadãos trabalhadores e responsáveis, dignos de respeito e de consideração.

Esta última intervenção foi muito sentida e mereceu o apoio e aplauso de todos os presentes, tendo-se dado por terminados os trabalhos do workshop que foi de facto muito bom. Nem mesmo a atitude do Sr. Presidente da Câmara de não entrar na sala, deu para ensombrar os trabalhos, sendo a intervenção do Sr. Presidente da República um dos seus pontos altos.

 

Associação Cultural Moinho da Juventude